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Introdução histórica

Não é fácil abordar um país devastado por uma guerra religiosa, política e social. O esporte, em condições tão severas como estas, é apenas um mero figurante, ou como o momento permite - um verdadeiro sobrevivente.


Assim, a 18ª edição da Parada das Nações desembarca na República do Iêmen, um país no extremo sudoeste da Península Arábica, no Oriente Médio, com limite ao norte pela Arábia Saudita e ao leste com Omã.


Antes de entrarmos nos momentos atuais de guerra e de esporte quase que inexistente, é preciso voltar no tempo para entender o que acontece hoje.


O Iêmen tem um passado difícil, de muitas brigas pela administração das terras onde hoje fica a nação. No século XIX até o início do século XX, a divisão era entre o Império Otomano e Britânico.


No entanto, os Otomanos foram derrotados na Primeira Guerra Mundial e a terra virou República Árabe do Iêmen (Iêmen do Norte) em 1962 . Por outro lado, a parte sul seguiu sob domínio britânico até 1967, quando surgiu a República Popular Democrática do Iêmen (Iêmen do Sul). Os anos seguintes foram de muita instabilidade, levando o país do norte a uma severa guerra civil.


Em 1990, os dois países viraram um só, a atual República do Iêmen. O presidente do Iêmen do Norte Ali Abdullah Saleh torna-se, então, o  presidente da nova república. Na prática, a parte denominada como "árabe" - no norte - assume o comando, enquanto a parte sul, com influência total do comunismo, não fica feliz e tenta voltar a ser um país a parte em 1994.


O Iêmen tem uma população de etnia árabe e de religião muçulmana. No entanto, assim como grande parte dos países da Península Arábica, a população iemenita pratica em sua maioria a vertente sunita da religião. Os xiitas são minoria, mas existem. Essas informações serão cruciais, já que é o principal motivo da guerra civil instaurada.


Protestos em 2011 na capital Sanaa - Foto: Reuters

Em 2011, teve início a Primavera Árabe, movimento de séries de protestos que se alastraram por países de origem árabe com a finalidade de derrubar governos opressores e ditatoriais. Os protestos respingaram na fraca democracia iemenita, constantemente citada como uma dos países democratas onde a corrupção era mais evidente. Assim como no Egito, Tunísia e no Líbano, o Iêmen teve a queda de Abdullah Saleh.


A renúncia de Saleh significou o posto indo para o seu vice Abd Rabbuh Mansur Al-Hadi, que viria a ser morto anos depois. Abd Al-Hadi tinha um segmento sunita muito instaurado, propagado para o resto do país. Essa maneira um pouco agressiva de instaurar a vertente sunita não agradou os de vertente xiita. Em meio à toda essa instabilidade foi a vez dos rebeldes huthis, de minoria xiita, tratarem ofensivas contra o governo iemenita em 2014, até conseguirem dominar Sanaa e o Palácio Presidencial em janeiro de 2015.


O presidente Al-Hadi buscou exílio em bases militares no sul do país, mais precisamente em Aden, segunda maior cidade do país. A guerra civil tornou proporções internacionais quando o Irã, país de maioria xiita, deu apoio aos rebeldes huthis. Do outro lado, sob comando da Arábia Saudita, uma frente militar com países árabes e o apoio logístico dos Estados Unidos em ajuda ao presidente iemenita. 


Rebeldes huthis em Sanaa - Foto: MOHAMMED HUWAIS/AFP


O Iêmen sofre por uma instabilidade política e religiosa, além de não ter bases de petróleo e gás como os vizinhos da península, o que faz o país ser um dos mais pobres do mundo em meio à uma guerra civil que já dura seis anos e já matou centenas de milhares de pessoas. Sanções impostas pela Arábia Saudita fechando portos e aeroportos também faz a fome e a pobreza piorarem no país. 


Segundo a ONU, o Iêmen passa pela pior crise humanitária do planeta. Cerca de 16 milhões de iemenitas, mais da metade da população, passa por escassez de alimentos e que cerca de 5 milhões estão a beira da fome.


O esporte sobrevive no Iêmen

Mas o esporte? Como falar do esporte em situações tão adversas. A prática esportiva resiste, principalmente com o futebol - esporte que, assim como outros países do mundo árabe, param o país para assistir.


Em março de 2019, no meio da guerra, a seleção do Iêmen derrotou o Nepal por 2 a 1, conquistando uma inédita vaga para a disputa da Copa da Ásia, realizada no Emirados Árabes Unidos. É claro que o país parou para se unir pela seleção, que muito provavelmente foi beneficiada pela guerra, já que teve Doha, no Catar, como sua base, bem longe do caos social, político e religioso que o país vive. Por conta da guerra, a grande maioria dos estádios e ginásios esportivos foram destruídos ou são usados para bases militares.


Para se ter uma ideia do feito da classificação, a nação nunca havia vencido uma partida da Copa do Golfo, a competição regional que tem participação das oito seleções da Península Arábica e o Iraque.


Seleção iemenita de futebol comemora vaga na Copa da Ásia - Foto: Reprodução


Em entrevista à agência francesa AFP, um torcedor local na época disse que a classificação heroica daria "alegria aos jovens" e que os ajudava a "esquecer algumas de suas tragédias". Um outro torcedor dizia: "Tentamos, no limite do possível, estimular a prática de futebol, apesar da destruição de muitas estruturas. O futebol não morreu no Iêmen".

Não só o futebol não morreu. Outros esportes de luta também, como o caratê, o judô e o taekwondo. O Iêmen costuma conquistar bons resultados regionais nessas modalidades, como a prata e bronze dos irmãos Anas Aklan e Maliq Aklan no taekwondo, nos Jogos Islâmicos da Solidariedade de 2005, na Arábia Saudita. 


Por falar em luta, as mulheres lutam duas vezes no Iêmen e o motivo não é exatamente a guerra. De acordo com a Global Gender Gap Report 2020, do Fórum Econômico Mundial, 65% das mulheres iemenitas são analfabetas, em comparação com 27% dos homens, além do Iêmen ocupar o último lugar entre 153 países no índice de diferença de gênero. Isso também é levado ao esporte, mas mesmo durante bombas e mísseis, Seham Amer ajuda meninas na capital Sanaa ensinando artes marciais.


Saindo das lutas e dos esportes mais convencionais, o Iêmen é conhecido por um esporte que envolve camelos, o salto sob o camelo. Nele o competidor tem um objetivo muito simples, de saltar o maior número de camelos enfileirados.



Iêmen em Jogos Olímpicos

Os melhores resultados olímpicos do Iêmen vieram em Jogos Asiáticos. Duas medalhas de bronze com Naji Al-Ashwal, na categoria até 52kg do sanshou, modalidade do wushu em Doha-2006, e com Akram Al-Noor, na categoria peso-leve do taekwondo em Busan-2002. Al-Noor participou das Olimpíadas de Atenas 2004, quando foi porta-bandeira do país.



Também no taekwondo o Iêmen conquistou sua melhor posição em Jogos Olímpicos, uma quartas de final com Tameem Al-Kubati na categoria até 58kg de Londres-2012. Al-Kubati é, talvez o maior atleta olímpico do país, tendo sido medalhista de bronze no Campeonato Asiático de Taekwondo em 2008 e medalhista de ouro nos Jogos Pan-Árabes de 2011, em Doha (QAT), além de carregar a bandeira iemenita na parada das nações nos Jogos de Londres.


Nas Olimpíadas do Rio, o Iêmen competiu com dois atletas, o judoca Zeyad Mater, que foi eliminado na segunda fase da categoria até 73kg por Victor Scvortov (UAE), e Mohamed Maamon Rageh, que não avançou de fase na prova dos 1.500m do atletismo.


Mokhtar representa o país natal de seu pai - Foto: Divulgação/Universidade do Michigan


Para Tóquio o Iêmen é um dos países que ainda não possuem classificados, mas certamente receberá convites no atletismo e nataçãoMokhtar Al-Yamani representou o país na natação nos últimos Mundiais e também nos Jogos Asiáticos de Jacarta-2018 e é cotado para receber convite. Atualmente ele represente a Universidade de Michigan e tem tripla cidadania: nasceu nos EUA, foi morar no Japão - terra natal de sua mãe -, e tem pai do Iêmen, país que ele representa.


A maior esperança de classificação, porém, era Ali Khousrof. O judoca é o número 74 do mundo com 514 pontos no ranking olímpico, e estava na zona de classificando para Tóquio-2020, por conta da cota continental, até que foi suspenso por uso do diurético furosemida, substância proibida. A decisão de suspensão de Khousrof chegou em 2021, mas vinha desde novembro de 2019, perdendo o resultado de ter chegado a terceira fase do Mundial. O judoca iemenita não apelou ao caso.


Khouros em disputa no Mundial 2019 - Foto: Divulgação/IJF

Aos 29 anos, Ali Khousrof tem uma incrível história de superação por conta do esporte. Aos 5 anos ele já estava nos tatames, quando seus país ainda tinha certa paz. Em 2011, pouco antes de sua segunda participação olímpica, o atleta foi baleado em uma manifestação da Primavera Árabe, citada mais acima no texto. Ele foi operado às pressas, conseguiu sair sem sequelas e voltou a tempo de disputar Londres-2012. Ali ainda se arrisca no meio da guerra para treinar cerca de 150 crianças na capital Sanaa.


Principais esportes

+ Futebol

O esporte mais conhecido e praticado do planeta também é o que mais resiste ao terror de uma guerra. No ranking da FIFA, o Iêmen é apenas a seleção 145ª, mas conquistou seus maiores resultados durante a guerra atual. A recente vaga na Copa da Ásia, mesmo com praticamente todos os estádios do país destruídos, comoveu o país inteiro, que parou para assistir todos os jogos. Em Jogos Olímpicos, no entanto, o Iêmen nunca conseguiu a classificação no futebol.


+ Taekwondo

A luta do povo iemenita nunca fez tanto sentido. É dela que vem os melhores resultados a nível olímpico do Iêmen. 


Tameem Al-Kubati (-58kg) chegou às quartas do taekwondo nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, o maior feito do país em Olimpíadas. Aliás, Al-Kubati é o maior esportista que o Iêmen já teve, tendo conquistado medalhas em competições regionais e o bronze no Campeonato Asiático. 


+ Judô

É do "caminho suave" que viria a maior esperança do Iêmen em Tóquio. Ali Khousrof  estava entre os classificados para os Jogos na categoria até 60kg até ser pego no doping. O atleta tem duas participações olímpicas no currículo.


Atleta destaque

Shiab Al-Arif: O taekwondista virou o principal atleta do Iêmen pra Tóquio após o doping do atleta do judô. Não é fácil escolher um atleta em destaque num país onde o destaque é a guerra, mas Al-Arif tem despontado como principal chance de convite para disputar os Jogos na categoria até 58kg. Ele foi eliminado na primeira luta dos Jogos Asiáticos, em 2018, e participou também do Aberto de Fujairah, em 2020. É bom lembrar que ele se encontra em 554º no ranking olímpico e em 340º no ranking mundial, bem longe das vagas. Mas tem grandes chances de ser convidado pela comissão.

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